Algumas empresas prejudicam nosso intelecto

Sono, desatenção, distração, esquecimento, distância. Começa assim e vai piorando. Parece uma preguiça pesada, aquela venosa, que a gente se sente culpado por carregá-la, mesmo que involuntariamente. E por um bom tempo você pensa que é o ser mais desleixado do universo, o pior profissional do mundo. Se não fizer força em tentar analisar a situação friamente, em colocar tudo, francamente, na mesa, essa sensação piora até você realmente se convencer de que é um paria da sociedade apenas enchendo lugar no mercado de trabalho. De repente, você, profissional, se vê doente, e não sabe de quê e nem por quê. Precisa descobrir.

O exemplo de cima não é tão exagerado quanto parece. O bom profissional, aquele que tem consciência de seu potencial e de sua capacidade de observar, avançar e aprender, fica frustrado numa situação dessas, ele se sente muito culpado por se sentir assim, com essa preguiça crônica que prejudica seu rendimento, sua vontade de fazer a diferença. Para os apaixonados pela profissão, essa eterna busca e os desafios que ocorrem em uma atuação produtiva representam motivação, é a razão pra acordar cedo todos os dias. Quando isso vai embora e dá lugar a uma fadiga inexplicável, torna-se torturante. Você precisa ser teimoso, insistir muito na sua eficiência e em sua luta pessoal enquanto busca entender a causa, analisar a situação completa e cuidadosamente e brigar contra ela.

O trabalho dentro de algumas empresas, ao contrário do que deveria acontecer, prejudica o nosso intelecto – especialmente no caso dos humanistas. Por mais que critiquem o comichão de quem não esquenta cadeira por muito tempo, eu acho que esses é que estão certos. Tempo demais em uma mesma empresa é prejudicial ao desenvolvimento profissional – a não ser aqueles que, embora tenham lugar cativo, nunca deixam de dar seus pulinhos por fora, fazendo freelas e se envolvendo em atividades diferentes das de sua rotina. Mas o tempo não é o alvo principal dessa crítica, mas sim o lugar.

Presa em lugares onde o conhecimento e o profissionalismo não são respeitados, a pessoa sente que vai ficando burra. A empresa não quer evoluir, está engessada em seus métodos obsoletos e não te deixa avançar, sequer te deixa usar aquilo que sabe. Empresas assim obrigam seus profissionais a fazerem tudo errado. E os neurônios começam a falhar quando não te deixam fazer do jeito certo, porque você lutou para exercer bem a sua profissão e tudo o que nela se inclui. Eles nem mesmo querem te ouvir, não existe esse canal de comunicação. É uma falha que só aumenta porque não há respeito pela carreira daquele indivíduo, daquilo que ele já sabe, já viveu, pode compartilhar e é capaz de observar.

Em plena Era do Conhecimento, quando humanizar e valorizar o trabalho em grupo e o diálogo, a troca de competências, a interação, a motivação e o aproveitamento da vivência de cada um são palavras de ordem dentro das corporações mais modernas (as mais ricas, digamos), ainda prevalecem em muitas empresas os métodos arcaicos utilizados lá atrás, na era industrial.

As relações de trabalho pautadas em um modelo moderno já tiveram sua eficácia comprovada, afinal, é um verdadeiro abismo que separa as vantagens que a atual traz dos prejuízos contabilizados durante séculos pela outra. A comunicação, a motivação, a valorização das características e vivências pessoais, o espaço para ampliar as potencialidades, a abertura para novas idéias e o incentivo à colaboração no lugar da disputa mostram como esse formato é tão mais inteligente e lucrativo para ambas as partes. E mesmo assim, muitas empresas ainda optam pela ditadura empresarial.

A imposição de hierarquias e essa muralha que se constrói em volta dos contratados nada mais é do que medo, pavor da ameaça em descobrirem alguém melhor. E não venha me dizer que é uma forma de impor respeito. Porque o respeito deve ser utilizado a todo momento e com todos, desde a função mais simples até o mais alto nível. Todas são importantes. Respeito é (ou deveria ser) uma exigência no mundo do trabalho. Mas o que vemos no lugar disso é prepotência e burrice.

O modelo industrial que ainda vemos por aí usa a força e a chantagem para conseguir o que quer, e não consegue, pois poderia ter mais e melhor, mas não vê isso porque está cego ao óbvio, tem o olhos tapados pela ignorância típica de quem dedica sua vida ao medo de perder o poder. Mas, me diga: não teria mais valor se tivesse a capacidade de formar um time comprometido, engajado, que trabalha feliz e satisfeito e que, por isso, faz mais do que se espera dele? Não teria a imagem mais enaltecida e o sucesso assegurado se soubesse lidar com o potencial humano do qual depende?

Empresas burras prejudicam muito o intelecto de quem está dentro delas. Elas não evoluem e não deixam evoluir. E quando essa forma limitada de encarar o mundo é vista com normalidade é que a doença se espalhou de vez. Depende de uma reação do profissional? Sim! Depende dele procurar emprego em outra empresa, melhor, porque dentro de lugares assim, não há salvação, uma vez que sequer existe a abertura para um possível diálogo.

Há muitos que escrevem sobre o perfil profissional ideal, como deve ser a postura de cada um no mercado de trabalho e os pecados mortais cometidos por aí nesse segmento. Também vejo as exigências absurdas que tratam de questões como competitividade, dinamismo, pró-atividade, ousadia etc., como se fossem garantia de qualidade (quando na verdade só servem para maquiar as imperfeições). Os RHs se esmeram em inventar modas nesse sentido. No entanto, eu nunca vi nada sobre o perfil de empresas que não sabem aproveitar o capital humano que têm em mãos e, como se não bastasse, contribuem para o emburrecimento de sua equipe.


Não seria esse um bom tema a ser analisado? As empresas têm uma grande responsabilidade nesse quesito também, e algumas deveriam rever seus métodos, afinal, nem elas e nem nós, profissionais comprometidos, temos tempo a perder.

Comentários

  1. Olá Aliz,pois é isso parece inerente de empresas despreparadas para um crescimento continuo e qualificado.
    Beijos!!!
    Luiz Alessandro

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  2. Paulo Sergio Mack23 de maio de 2008 19:41

    Obrigado por suas palavras, desse jeito vou me tornar Jornalista, rsss.
    Deus te abençoe e obrigado!
    Bjs
    Paulo Mack

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  3. Alessandro Martins25 de maio de 2008 20:59

    Trabalhei numa empresa. Uma boa empresa. Boa pagadora. Cumpridora. Com bons colegas e chefes. No entanto, precisei ser mandado embora para redescobrir meus potenciais. Às vezes, a comodidade de contar com uma determinada estrutura, mesmo que seja uma boa estrutura, nos paralisa.

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  4. É exatamente isso que eu sinto todo dia que Deus dá. E é porque faz só um ano que estou nessa, de emprego fixo. Já estou planejando o plano B. Faço qualquer negócio, menos ficar burra.

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  5. Olá querida

    Valeu da festa!
    Pena que o povo não veio, mas tudo bem.
    Manda algumas fotos pra arquivo.
    No mais tudo bem.

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